sexta-feira, 10 de maio de 2013

Felicidade a pronta-entrega


   

Será que podemos comprar a felicidade? Ligue e compre que entregamos em sua casa, ou se preferir compre pela internet sem sair de casa. Será que tudo na vida tem um preço e pode ser comprado? O capitalismo nos diz que sim e nos oferece vários objetos para que deles se possa gozar, ele cria uma demanda de compras como uma necessidade e incentiva o consumismo de comprar mais e mais. A felicidade para muitas pessoas está associada ao ter objetos de consumo, muitas vezes o prazer aparece apenas na hora da compra podendo levar depois a um arrependimento, ou muitas vezes a pessoa nem chega a usufruir o que comprou.
 Para a Psicanálise o homem é sujeito da falta, logo se algo falta cria-se um desejo. Para preencher essa falta procura-se um objeto externo na tentativa de se fazer completo. Por objeto podemos entender qualquer coisa que ofereça ao sujeito uma satisfação e um prazer.
A quantidade de ofertas sedutoras de objetos que prometem tamponar o furo, o vazio, e dar a ilusão de completude, de um gozo intenso e imediato é o que mais existe na sociedade moderna. Mas será que existe um objeto capaz de trazer a felicidade? Ofertas é o que não faltam, mas a felicidade está associada ao comprar? Ou dito de outro modo o sentido da vida é consumir?
 Dessa forma cria-se uma demanda infinita, mais e mais, pelas infinidades de objetos que existem. Quando a pessoa consegue o que tanto queria ela passa a desejar outra coisa e essa dinâmica se repete diversas vezes, porque a própria definição de desejo para psicanálise é sempre desejo de outra coisa, é movimento, porque o homem nunca vai deixar de desejar. De certa forma é um não quer saber da sua própria dor, própria falta, não quer se deparar com o vazio, a solidão, mas sabemos que a angústia é um afeto que não se pode fugir, nem por meio das compras, uma vez que o prazer obtido no ato da compra é tão passageiro.
Compra consciente será que isso é possível? Para isso seria necessário levar em consideração apenas o que é necessidade, o indispensável para viver, mas sabemos que o ser humano é feito de desejos, vontades e pulsões e que ele não consome por necessidade, mas por prazer. Isso é o que o diferencia do animal, que age apenas por necessidade. O desejo também não vem do nada, estão associadas às fantasias inconscientes infantis, aquelas construídas na infância e que foram reprimidas no inconsciente, mas que de certa forma determina o comportamento do adulto, na medida em que é na infância que se construí a personalidade.
 Mas como saber diferenciar uma compra por prazer de uma compulsão por compras? Até aonde isso é benéfico e aonde se torna prejudicial? Constatar se há ou não uma compulsão é até digamos uma tarefa fácil, o mais difícil é cessar com esse comportamento prejudicial à pessoa e acabar com esse círculo vicioso, mas para isso é preciso analisar primeiro as causas inconscientes que levam ao consumismo, quais as fantasias infantis envolvidas e qual prazer inconsciente está por trás desse funcionamento, tudo isso devido à maioria das pessoas não saberem o porquê consomem tanto, só sabem dizer que isso as fazem feliz, que gostam de comprar, mas podemos dizer que isso não é tudo, que há bem mais coisas inconscientes que mantêm essa demanda infinita de mais e mais.


Daniela Bittencourt – Psicóloga - CRP 12/07184.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Psicanálise e Psicologia

Psicanálise e Psicologia são práticas muito distintas, porém a maioria das pessoas, dentre eles os estudantes de psicologia, os profissionais, os pacientes assim como a comunidade em geral não sabem diferenciá-las. Hoje em dia ainda são poucos os pacientes que procuram por psicanalistas e demandam um desejo de análise, principalmente em cidades pequenas, aonde a psicanálise ainda não faz parte da cultura.
É um erro comum até mesmo de profissionais acharem que psicólogo e psicanalista tratam a mesma coisa, só que de maneiras diferentes, que apesar de serem abordagens distintas no final os resultados alcançados são parecidos, logo ficaria a critério de cada pessoa escolher qual abordagem mais se identifica.
Outro pensamento equivocado, mas que ainda se ouve falar é: se você quer tratar algo mais pontual procure um psicólogo, mas se for algo mais profundo vá a um psicanalista. Não acredito que essa frase seja correta, uma vez que esses profissionais tratam de coisas totalmente diferentes. O psicólogo estuda o ser humano de forma abrangente, pensamento e comportamento, já o objeto de estudo do psicanalista não é o ser humano, mas sim o inconsciente.
Um psicólogo realiza diagnóstico dos transtornos mentais segundo DSM IV e o CID 10 e trabalha através de psicoterapia para tratar o transtorno e para isso contam com uma teoria o quanto mais sólida possível, com uma lógica consistente para explicar o funcionamento do indivíduo e do seu transtorno. Já os psicanalistas não trabalham pelo viés da lógica consistente, uma vez que o inconsciente não apresenta lógica, ele é para – consistente.
Um psicólogo durante as sessões de psicoterapia pode passar a seus pacientes o maior número de informações possíveis sobre o seu transtorno, assim como desenvolver com ele métodos para evitar recaídas. Um psicanalista nunca chega a oferecer a seus pacientes as melhores opções as serem tomadas frente ao problema, bem como não oferece informações sobre seu transtorno, já que um psicanalista não trabalha o transtorno, mas sim a estrutura psíquica: neurose, psicose e perversão, logo também não realizam psicodiagnóstico.
Outra diferença é que se pode aprender psicologia através do estudo e desenvolver uma psicologia coerente mesmo que nunca se tenha submetido à psicoterapia, desde que, claro, tenho uma formação superior em psicologia. A formação do analista se dá através de um tripé, que consiste em análise pessoal, supervisão e estudo, pois a única maneira de “aprender” psicanálise é passando pelo método, ou seja, a psicanálise se aprende no divã.
Não é necessário ser psicólogo, para ser psicanalista, justamente por serem práticas muito diferentes, mas a maioria dos psicanalistas são médicos ou psicólogos. A formação em psicologia se dá através de universidade, já a de um psicanalista por meio de instituições psicanalíticas.
No teatro de Molière, há uma expressão que resume o trabalho do analista: um analista não tem por que explicar para os pais da menina o porquê ela não fala. O único valor possível de seu trabalho é o de fazê-la falar. Diferentemente do psicólogo, o psicanalista não trabalha com explicação, compreensão e com a lógica, pois o tratamento psicanalítico nunca se dá sobre aquilo que o pacientes já sabe de si mesmo, mas sim sobre o que ele não sabe.
A psicologia trabalha os transtornos visando à eliminação do sintoma e a melhora na qualidade de vida do paciente. A psicanálise não foca seu trabalho no sintoma, nem visa à eliminação dele, porque é através dele que se chega ao inconsciente. Sendo assim definitivamente analistas e psicólogos não se ocupam do tratamento dos mesmos problemas.

Daniela Bittencourt